“Cara ou coroa”? Creio que seja o meio mais rápido para se decidir algo, num sorteio. Por outro lado, às vezes a vida nos coloca em situações que são verdadeiras “cara ou coroa” e cujos resultados podem, até, ser trágicos.
Entre 1974 e 1976 exerci a função de Fiscal da Creai (Carteira de Crédito Agrícola e Industrial), no BB-Resplendor. Tal função consistia em vistorias nas propriedades rurais dos mutuários, visando constatar as aplicações dos créditos contratados e liberados, bem como os resultados obtidos pelos pelos ruralistas, através do apoio creditício do banco. Àquela época nossa agência detinha cerca de 2.400 operações contratadas e que deveriam ser periodicamente vistoriadas, de acordo com suas características (investimentos; custeios; estocagem de milho, arroz, feijão, café, etc.).
Certa feita recebi os contratos que deveria fiscalizar numa determinada região do município. Separados por mutuário e respectivas localizações – córregos, linhas, estradas, etc. - elaborávamos os roteiros para os dias de trabalho.
Por TRÊS VEZES e motivos diversos, posterguei as visitas programadas para um dos roteiros. Quase terminando todos os demais roteiros programados, retornei àquelas visitas NÃO REALIZADAS e parti para realizá-las.
Numa sexta-feira de manhã, a 30 km da cidade, chego à casa do primeiro mutuário. Apresento-me; explico o serviço que eu deveria realizar; peço-lhe para juntar o gado; mostrar-me as máquinas financiadas; bem como as melhorias introduzidas no curral. Cabisbaixo e com os olhos muito tristes, pergunto-lhe se havia algo errado, ao que ele externa sua preocupação:
“Seu” fiscal, minha mulher e eu estamos muito preocupados pois nossa filha, ontem à noite e distraidamente engoliu uma moeda e hoje está com dificuldades para respirar. Estamos com medo do que pode acontecer e não temos meios de ir até ao hospital para o Dr. Renato examiná-la.
Prontamente coloquei-me à disposição de levá-los até o hospital, em Resplendor.
Os pais e a filha arrumaram-se rapidamente. A garota tinha 4/5 anos; olhos azuis; sorriso triste, porém simpático; respiração meio difícil; enfim, deduzi que o caso era MUITO GRAVE. Conduzi o automóvel em baixa velocidade e evitando trancos, temendo agravar a situação da criança. Mas felizmente, chegamos bem.
Adentramos na emergência do hospital; a atendente acolheu a criança; Dr. Renato entrou em ação; cerca de 40 minutos depois a moeda estava retirada e Dr. Renato aproxima-se dos pais e de mim, e relata: “FOI A MAIOR SORTE QUE A MOEDA TENHA PARADO NA GARGANTA NUMA POSIÇÃO EM QUE A RESPIRAÇÃO PÔDE SER REALIZADA EM 25% DO NORMAL. Tal posição dificultou a retirada da moeda, porém permitiu a SOBREVIVÊNCIA da criança.
Na segunda-feira retorno à propriedade do mutuário; vejo a menina alegre e feliz; peço novamente que os bens financiados sejam preparados para a vistoria, ao que o mutuário me informa:
“MEUS CONTRATOS ESTÃO TODOS LIQUIDADOS”, diz-me o mutuário.
Abro o envelope contendo o seu dossiê e CONSTATO que todos os contratos estavam realmente LIQUIDADOS e mais, continham carimbos que os encaminhavam ao ARQUIVO. Por quê vieram parar na minha programação de vistorias? Por quê adiei 3 VEZES a visita ao mutuário? …???
“Cara ou coroa”? Qual era o “outro lado” da moeda que a criança ingerira? Creio que NUNCA o saberei!
Edson Gomes Santos – Divinópolis-MG - 2011