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O OUTRO LADO DA MOEDA – Resplendor-MG – 1975
Atualizado em 30/06/11 - 13h53
 
Edson Gomes Santos
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Edson Gomes Santos  
 

“Cara ou coroa”?  Creio que seja  o meio mais rápido para se decidir algo, num sorteio.  Por outro lado, às vezes a vida nos coloca em situações que são verdadeiras “cara ou coroa” e cujos resultados podem, até, ser trágicos. 

Entre 1974 e 1976 exerci a função de Fiscal da Creai (Carteira de Crédito Agrícola e Industrial), no BB-Resplendor.  Tal função consistia em vistorias nas propriedades rurais dos mutuários, visando constatar as aplicações dos créditos contratados e liberados, bem como os resultados obtidos pelos pelos ruralistas, através do apoio creditício do banco. Àquela época nossa agência detinha cerca de 2.400 operações contratadas e que deveriam ser periodicamente vistoriadas, de acordo com suas características (investimentos; custeios; estocagem de milho, arroz, feijão, café, etc.). 

Certa feita recebi os contratos que deveria fiscalizar numa determinada região do município.  Separados por mutuário e respectivas localizações – córregos, linhas, estradas, etc. - elaborávamos os roteiros para os dias de trabalho. 
Por TRÊS VEZES e motivos diversos, posterguei as visitas programadas para um dos roteiros. Quase terminando todos os demais roteiros programados, retornei àquelas visitas NÃO REALIZADAS e parti para realizá-las. 

Numa sexta-feira de manhã, a 30 km da cidade,  chego à casa do primeiro mutuário. Apresento-me; explico o serviço  que eu deveria realizar; peço-lhe para juntar o gado; mostrar-me as máquinas  financiadas; bem como as melhorias introduzidas no curral. Cabisbaixo e com os olhos muito tristes,  pergunto-lhe se havia algo errado, ao que ele externa sua preocupação: 

“Seu” fiscal, minha mulher e eu estamos muito preocupados pois nossa filha, ontem à noite e distraidamente engoliu uma moeda e hoje está com dificuldades para respirar.  Estamos com medo do que pode acontecer e não temos meios de ir até ao hospital para o Dr. Renato examiná-la.
Prontamente coloquei-me à disposição de levá-los até o hospital, em Resplendor.

Os pais e a filha arrumaram-se rapidamente. A garota tinha 4/5 anos; olhos azuis; sorriso triste, porém simpático; respiração meio difícil; enfim, deduzi que o caso era MUITO GRAVE.  Conduzi o automóvel em baixa velocidade e evitando trancos, temendo agravar a situação da criança. Mas felizmente, chegamos bem.

Adentramos na emergência do hospital; a atendente acolheu  a criança; Dr. Renato entrou em ação; cerca de 40 minutos depois a moeda estava retirada e Dr. Renato aproxima-se dos pais e de mim, e relata: “FOI A MAIOR SORTE QUE A MOEDA TENHA PARADO NA GARGANTA NUMA POSIÇÃO EM QUE A RESPIRAÇÃO PÔDE SER REALIZADA EM 25% DO NORMAL. Tal posição dificultou a retirada da moeda, porém permitiu a SOBREVIVÊNCIA da criança.

Na segunda-feira retorno à propriedade do mutuário; vejo a menina alegre e feliz; peço novamente que os bens financiados sejam preparados para a vistoria, ao que o mutuário me informa:

“MEUS CONTRATOS ESTÃO TODOS LIQUIDADOS”,  diz-me o mutuário. 

Abro o envelope contendo o seu dossiê e CONSTATO que todos os contratos  estavam realmente LIQUIDADOS e mais, continham carimbos que os encaminhavam ao ARQUIVO.  Por quê vieram parar  na minha programação de vistorias?   Por quê adiei 3 VEZES a visita ao mutuário?   …???

“Cara ou coroa”?  Qual era o “outro lado” da moeda que a criança ingerira?  Creio que NUNCA   o saberei!

Edson Gomes Santos – Divinópolis-MG - 2011  

 

 
     

 
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