A desenfreada carreira da vida nem sempre nos permite uma pausa para indagar a nós mesmos sobre a que se destina o próprio existir. Uma dúvida que não interfere muito no dia a dia, mas que nas horas vazias da agenda reaparece na memória. Pelo menos na minha.
Assim, embora reconheça meus parcos conhecimentos e a minha pouca capacidade para tratar de assunto tão complexo, tomarei a sabedoria recolhida nos muitos papos de barbearia e lapidando-a com boa dose do saber matuto, tentarei encontrar resposta para esta dúvida do momento. Mas prometo desde já que se não conseguir resposta adequada garantirei ao eventual leitor o sagrado direito de dar ao texto o destino que ele assim o desejar. Reservo apenas a possibilidade de inventar outra estória da próxima vez.
Tentemos pois levar o barco ao seu destino.
Vez por outra, como disse, embora pese em mim uma bem firme formação religiosa, fico a imaginar se viemos mesmo a este mundo para cumprir uma vida preestabelecida. Se esta seria, de fato, a única explicação para a nossa existência. Se não teríamos um motivo próprio, pessoal, para nos fazer enfrentar com galhardia as fases boas ou más da vida. Uma razão pessoal para existir.
Na verdade sei que isto ocorre porque tenho resistência a aceitar como verdadeira a hipótese de que estamos aqui, na vida que se vive, simplesmente como atores a desempenhar cada um o seu papel como num teatro. Desenvolvendo enredos ao estilo dos escritos por Janete Clair, Aguinaldo Silva ou, Walcyr Carrasco para as suas novelas. E isto mexe com os bichinhos do meio dos miolos da gente e os fazem achar marota esta ideia de que estamos aqui na terra só para ganhar cachê e recolher o imposto de renda.
Nessa dúvida. Nesse vai não vai. Nesse sabe não sabe que vez por outra ataca o tal espaço livre da minha agenda, resolvi então consultar o saudoso amigo Xico, que lhes apresento como um sábio com o qual convivi até a bem pouco tempo. Botei no prego os compromissos, encostei de lado os outros prazeres da vida, me aboletei no banco do fusquinha 1969 e fui apear na porta da cozinha dele. Bem na horinha de tomar um gole de café quentinho, feito com pó torrado no terreiro e moído naquele moinho tocado a braço e sovaco do coitado. E a nossa conversa, como sempre acontece ali na roça, conferiu o clima, reclamou da estiagem, passou pela lavoura plantada, resvalou no canavial pendoado e tocou nas proibições das roçadas e nos homens da Polícia Florestal. E se alongou ao falar dos bois de carro até que finalmente desembocou na declaração da pergunta que motivou a viagem.
Xico, a que se destina o existir? Pra quê qui nóis ixiste? Pru modi de quê qui nóis tá qui no mundo? Quê qui nóis tamos fazeno inriba dessa terra?
Ao que ele respondeu na sua voz pousada: - Bem, aí é conformi o seguinte, Luizim. Nóis ixisti purquê Deus qué. E tamo aqui na terra prá cumpri nossa sina. Bota sentido. Nasci como muitos da terra. Como nasce um pé de mio na beira do quintal. Cresci no meio da paia. Cumi o mio da espiga. Fiquei forte. Não cheguei a ficar gordo qui nem um capado. Mas as moças diziam que eu era bunito. Cê vai dizer que eu era vistoso como cavalo de charrete. Não importa. Vivia feliz. Tive amigo que mudou prá cidade. Virô até dotô. Outros ficaro pinico mermo. Uns meteram o pé na jaca e seguiram o rumo do vento. Outros atolaram o pé no produto deixado na privada. Uns reproduziram uma fieira de fios, aquele monte de mulequinho. Outros vadiaram pelo mundo, de cabaré em cabaré e num misturaram o sangue prá dar formato de gente numa nova criatura. Mas todos sorriam felizes. Eu também sempre fui assim. Tudo táva bão. Já no final a vista começou a fáiar, as pernas deram de bambiar e a cacunda invergou qui nem bambu véio. As forças começaro a rariar. Mas eu não fiquei triste. Aí o lião começou a oiá mêi de banda prá mim. Pensei em corrê do predadô mais o corpo num quis ajudá. As vêia intupida não neguciava direito o sangue com o coração. Um dia doía as coisas de dentro e no outro dia, doia as coisas de fora. O bucho resmungava com a chegada e com a falta de cumida. As coisas apartadas do corpo começaro a cair. O miolo já imbaraiava até o nome dos fios menores. Pur fim, nem um caroço do mio eu truce prá cova. Só podi ser sina....
Ele ia falando e eu cá com os meus botões a pensar. Vida vivida com a alegria da simplicidade. Sem stress. E para que outra vida se é óbvio que é para o SER FELIZ que se destina o existir?