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De Jesus Silva Santos
Atualizado em 16/07/12 - 16h40
 
Ataualpa A.P. Filho
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Ataualpa A.P. Filho  
 

Permitam-me que fale de um fato que ocorreu na semana que passou. Entre denúncias e cassação, gostaria de refletir um pouco sobre a atitude de mais um Silva, o Rejaniel, morador de rua que achou, debaixo de uma árvore próxima a um ponto de ônibus, a quantia de vinte mil reais, que estavam em duas sacolas e uma bolsa preta que continha cédulas, moedas e comprovantes de pagamento de cartões de crédito. E através desses comprovantes, foi possível identificar o restaurante de onde o dinheiro foi roubado.

O devolver o dinheiro já seria um gesto nobre, porém essa atitude ganhou uma conotação maior por se tratar de um cidadão que morava com a sua companheira debaixo de um viaduto, ou seja, desprovido de bens materiais, mas com uma dignidade consolidada pelos ensinamentos de sua mãe, a quem ele não vê há mais de dezesseis anos:

“A minha mãe me ensinou que não devo roubar e se vir alguém roubando, devo avisar a polícia. Se ela me assistir pela TV lá no Maranhão vai ver que o filho dela ainda é uma das pessoas honestas deste mundo.” – Essa educação que vem de casa nos faz muita falta...

Apropriação indébita é crime. Contudo, diante das condições em que se encontravam o senhor Rejaniel e a senhora Sandra Regina Domingues, qualquer advogado teria facilidade para defendê-los. E pelo senso comum, muitos os inocentariam.

É do conhecimento de todos que a miséria é corrosiva. Mas essa atitude do casal citado deixa evidente que ainda é possível encontrar, mesmo no fundo do poço, pessoas dignas. Isso também prova que a ocasião não faz o ladrão. Muitos o chamaram de tolo por ter devolvido o dinheiro. E por ter entregado à Polícia o produto do roubo, sofreu ameaças. Mas prevaleceram os ensinamentos da mãe...

 Essa atitude do casal foi correta. A notoriedade veio pelo antagonismo do que a sociedade está habituada a ver, regida pela mentalidade de que “o mundo é dos espertos”. Entendo plenamente a atitude do Rejaniel. Uma das maiores tristezas, dentro da cultura nordestina, é “dar desgosto à mãe”. Além da obediência, há também essa ideia de que ninguém é feliz quando a faz sofrer, ou a agride sem razão nenhuma. Não se bate na mãe nem com uma flor. É um ser sagrado. O amor de mãe vai além da esperança, pois dizem que esta é a última que morre. Esse amor não morre com as dores, mas com o desgosto. Se o filho sofre na retidão, nos seus princípios morais, éticos; a mãe sofre junto e o amor se multiplica. Mas se o filho nega todos os seus ensinamentos, decepciona a ponto dela preferir vê-lo morto a fora do seu coração, é um caso lastimável.

Fui criado sob a lenda do Cabeça de Cuia, o filho amaldiçoado pela mãe, por ter batido nela, em um ato de pura ingratidão. Sei de vários casos de filhos que agridem a mãe. Em muitos deles, a droga está envolvida. Mas a mãe perdoa a dor física, no entanto, a dor da alma, da ingratidão é pior, quase imperdoável. Rejaniel sabe que a pobreza não é uma chaga moral; mas o hábito de ficar com o alheio sim; consiste em um desvio do comportamento ético.

Às vezes me pego pensando nas mães dessas pessoas envolvidas em desvios de verba, em escândalos que demonstraram uma mácula no caráter, na dignidade. Elas devem sentir uma dor imensa, porque essa dor que bate na alma produz uma tristeza imensurável...

Falo do Nordeste, porque foi onde tive a minha infância, portanto posso afirmar que, na minha época, a educação dada pelas mães, mesmo as analfabetas, estava estruturada em alguns fatores importantes: o temor a Deus, o não pegar nas coisas alheias, a prática do não vender os seus direitos, obedecer aos mais velhos, o honrar pai e mãe. Por isso o ser pobre não consistia em um problema, mas o sem palavra, o sem dignidade, o sem moral, retrata o perfil de quem pode ter crescido sem referências éticas: - a tua mãe não te deu educação, menino?

 Entre esses princípios que podem ser considerados tradicionais ou ultrapassados, encontro ainda uma grande resistência de falar a palavra “desgraçado”. Concebi essa palavra como a maior ofensa, jamais poderia adjetivar alguém assim, pois “desgraçada” seria a pior condição a que uma pessoa poderia chegar, porque isso significaria “sem a graça de Deus”. E sem esta, seria um castigo para um pecado mortal.

Rejaniel, arariense, para mim virou herói, diante do que se apresenta, votaria nele para senador. Sei o que é viver tanto tempo longe da mãe, mas tendo sempre consigo os seus ensinamentos. Dentre tantos que ouvi da minha, há um que sempre uso, principalmente nos momentos de angústia: “aquilo que não é para sempre, sempre aguenta”.

A dona Maria Ferreira dos Santos, que ainda mora no Maranhão, nunca teve filhos biológicos, porém adotou cinco, entre eles Rejaniel, quando este tinha cinco anos de idade, diz-se orgulhosa da atitude do filho que criou...

 

 

 
     

 
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