Conta Voltaire que um súdito decidiu procurar o rei para
resolver uma antiga pendenga com um vizinho.
Homem rude, modos grosseiros, irascível, metia medo em
todos da vila, tudo isso preocupou os assessores e os responsáveis pela
segurança do rei.
Que comportamento teria esse homem perante sua
majestade...?
Alívio total, o súdito se portou de forma inesperadamente
humilde. Vestiu-se apropriadamente para a ocasião, falando baixo, gestos
respeitosos, mostrou-se excessivamente subserviente a tal ponto que, terminada
a audiência, pôs-se a sair de ré para que não se apresentasse de costas para o
rei.
Tempos depois, o reino entra em guerra com o reino vizinho.
Calha de o súdito servir no mesmo batalhão que era comandado pelo próprio rei.
A guerra foi perdida, rei e súdito caem na mesma prisão, porão pequeno, todo
gradeado e fedorento de um antigo castelo.
Numa noite, o rei, exausto e fragilizado, não consegue nem
tirar suas botas. Pede ao súdito que as tire.
A antiga humildade, a vergonhosa subserviência e os modos
grosseiros tão bem ocultados na audiência deram lugar a uma cena característica
de um caráter duvidoso.
Segurando as botas com a violência que sempre lhe foi tão
própria, puxou-as com tamanha grosseria e proferindo os mais desrespeitosos
palavrões contra o rei, atirou-as para o alto. O rei as recebeu de volta na
cabeça.
A dor de sua majestade foi mais na alma do que na
cabeça.
Quê doença crônica é esse tal do mau
caráter....!!!